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"Vista à luz da evolução, a biologia é, talvez, intelectualmente a mais satisfatória e inspiradora ciência. Sem essa luz, torna-se uma pilha de fatos diversos – alguns deles interessantes ou curiosos, mas que não fazem uma descrição significativa do todo". Como já nos adiantava Theodosius Dobzhansky em “Nada em Biologia faz sentido se não à luz da evolução”, A Evolução Biológica é a linha invisível que percorre todo conhecimento sobre a vida e deve ser compreendido por todos que almejam conhecer verdadeiramente o mundo natural. Você pode ler o artigo completo em português (que só tem no Biologia em Pauta) clicando aqui. Essa leitura é bem bacana para entender a Evolução sob a perspectiva prática e filosófica dos seus mecanismos, além das controvérsias relacionadas ao embate com o pensamento religioso.

Deriva Genética

Ao que tudo indica, as primeiras formas de vida foram seres unicelulares, muito parecidos com algumas  bactérias anaeróbicas atuais, que não necessitam de oxigênio para respirar e gerar energia. A concentração de oxigênio na atmosfera da Terra primitiva era extremamente baixo (0,01%), o que permitiu  que se concentrassem compostos orgânicos nos oceanos sem que eles fossem oxidados. Estes compostos foram utilizados pelas primeiras formas de vida para gerar energia, provavelmente numa versão simplificada do processo de quimiossíntese (uma forma autotrófica um pouco parecida com a fotossíntese, mas em vez da luz e gás carbônico, outros compostos químicos diferentes são reduzidos para gerar energia para a célula).

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Assim, o primeiro grande salto onde seres vivos modificaram substancialmente o ambiente foi o surgimento de bactérias fotossintetizantes, isto é, capazes de transformar a energia luminosa do sol em energia química passível de ser utilizada no seu metabolismo celular. A luz do sol é um recurso abundante na maior parte da superfície terrestre (excetuando-se os polos da terra e regiões abissais dos oceanos, por exemplo), mas a fotossíntese primitiva não era como a conhecemos hoje. Os processos bioquímicos das células vivas também são moldados pela evolução, isto é, passam por transformações ao longo do tempo e são selecionadas pelo ambiente. Diferente do processo que conhecemos atualmente, as primeiras bactérias fotossintetizantes utilizavam o Hidrogênio proveniente da quebra de moléculas de água (2H2O → O2 + 2H2).

Já o Oxigênio, produto tóxico do processo, era liberado e ficava dissolvido na água, posteriormente, difundindo-se também para a atmosfera. O oxigênio era, portanto, tóxico tanto para as primeiras bactérias fotossintetizantes quanto para as quimiossintetizantes já existentes. Pensando que as células quimiossintéticas devessem possuir ampla distribuição nos oceanos primitivos, onde a quantidade de compostos dissolvidos era enorme, o aumento de oxigênio atmosférico provocado pelo "boom" de bactérias fotossintetizantes provocou uma oxidação cada vez maior destes compostos, reduzindo sua disponibilidade e controlando a população das bactérias que dependiam destes. Esse momento geológico da terra que eu descrevi é conhecido como a revolução do oxigênio, que é bem visualmente perceptível pelo gráfico que eu deixo ao lado.

O oxigênio dissolvido na atmosfera passou dos 0,01% para os atuais 22%, provocando uma primeira grande extinção causada pela poluição por oxigênio liberado, que era tóxico à todas as formas de vida até então. Essa transformação permitiu, por outro lado, a evolução da respiração aeróbica que, bioquimicamente, pode ser até 15x mais eficiente na produção de energia do que a anaeróbica. Então, pensando na dialética da evolução, a maioria das espécies da terra primitiva não conseguiriam viver no ambiente atual, assim como a maioria das espécies vivas atuais não sobreviveriam na terra primitiva. O meio ambiente seleciona as espécies e as espécies modificam o ambiente. Esse é o processo constante, dialético e dinâmico que chamamos de Evolução.

Dialética da Evolução

 

Hoje vivemos uma extinção em massa provocada por um conjunto de fatores que são atribuídos à atividade humana: desmatamento (perda de habitat), caça, aquecimento global por intensificação de gases estufa oriundos de atividades produtivas, entre outras. Essa é uma característica fortemente ligada à era geológica atual: antropoceno.

A principal diferença é o agente causador: se antes, eventos naturais, hoje é atividade humana. O interessante é observar que a dialética evolutiva se impõe até mesmo nesse caso. Somos animais; primatas, mais especificamente. O homem moderno se derivou há cerca de 200 mil anos, no continente Africano, provavelmente na região da Etiópia. Nesse tempo, que é um suspiro para a o tempo evolutivo, nós realizamos modificações radicais na paisagem natural e isso selecionou adaptações e mudanças de comportamento nos animais e plantas nativas dessas respectivas regiões. Somos mais que uma força geológica, somos uma pressão seletiva. Isso tanto é verdade que certas espécies que se relacionam bem com a vida humana ou que tem uma 'utilidade para ela são reprodutivamente favorecidas em relação à outras. Os cães, gatos, pombos, capivaras, gado, etc. na aba de documentários, tem um episódio de "Planet Earth II" chamado Cities, que fala exatamente sobre isso! Clicando no link você poderá assisti-lo em HD.

 

Mas a Evolução Biológica não é uma Teoria?

Existe uma confusão comum em relação a termos muito utilizados dentro da ciência, como Lei, Teoria, Hipótese, Fato científico, etc. Deixo um vídeo ao lado que explica estes termos. é bem interessante! Popularmente, "teoria" possui vários sentidos, como de "sugestão", "imaginação" ou algo que ainda não foi corroborado, mas na verdade, teoria científica significa um "conhecimento organizado sistematicamente, aplicável a uma ampla variedade de circunstâncias; em particular, um sistema de premissas, princípios, e regras de procedimento elaborados para analisar, prever, ou descrever a natureza ou comportamento de um determinado conjunto especificado de fenômenos". Parece bem mais complexo, não? E é mesmo. Simplificando um pouco a definição, Teoria Científica é um conhecimento elaborado a partir da constante reafirmação e generalização de hipóteses. Seria o mais alto grau de confirmação de uma ideia científica, como adianta o Pirula no vídeo.

As teorias, bem como o conhecimento científico no geral, não são irrefutáveis, nem produtoras de verdades absolutas, mas justamente uma das coisas que caracterizam a força de uma teoria é o grau de irrefutabilidade dela, segundo o filósofo da ciência Karl Popper. Assim, novos fatos observados que não são explicáveis pela teoria vigente a priori enfraquecem ela e o oposto também é verdadeiro. Vale ressaltar também que as teorias podem sofrer aperfeiçoamentos ou modificações, visto que é praticamente impossível que uma proposição seja tão absolutamente perfeita que explique com tanta precisão os fenômenos naturais no primeiro momento em que ela é pensada. Muitas vezes em vez de simplesmente elas serem descartadas, dependendo da nova evidência encontrada, são aperfeiçoadas para se aproximar da melhor explicação possível para os fatos observados. Foi o caso da teoria evolutiva proposta por Darwin. O conjunto de fatos científicos que suportam a teoria sintética da evolução que utilizamos atualmente é baseado em muitas ideias de Darwin, mas dada as limitações tecnológicas da época, ela tinha um alcance também limitado. Por isso, hoje temos um conjunto muito mais complexo, mais unificador e preciso, do que aquele inicialmente proposto por Charles Darwin.

Outro fato importante de entendermos sobre teorias científicas é que elas não precisam ser unificadoras e explicar necessariamente todos os fenômenos da Biologia, Física e Química, mas podem apresentar explicação para apenas fatos específicos. Para que uma teoria científica seja "desbancada", é necessário que existam evidências consistentes dentro dos moldes científicos para contrapô-la. Por isso muitas discussões entre Criacionistas e Evolucionistas são infrutíferas, visto que não há evidências científicas da existência de um Deus que crie ou tenha criado as espécies de seres vivos. A crença neste fator se dá por intermédio da , que possui uma forma diferente para considerar algo verdadeiro ou falso. A religião é uma forma de explicar fenômenos naturais também, mas passa por outros processos para se construir. Da mesma forma, não é comprovável cientificamente a inexistência de Deus, o que faz inconsistente o fato de tantos cientistas serem avessos à religião como se elas fossem, nas suas naturezas, inimigas. Encarar a ciência como religião é equivocado, e considerar como correto apenas e exclusivamente o que a ciência diz que é, também. Isto por que a ciência muitas vezes produz hipóteses descartadas, verdades temporárias e é limitada pela tecnologia para compreender o mundo. A ciência tem suas limitações éticas, tecnológicas e filosóficas. Por isso, não é capaz, e dificilmente um dia será, de explicar o mundo natural de forma absolutamente completa. A questão é que nunca saberemos o quanto não sabemos ainda.

 

Desde a Antiguidade até o final do século XIX, grande parte dos estudiosos acreditava que a prole pudesse herdar dos progenitores as modificações que eles sofressem durante sua vida. Essas modificações poderiam decorrer do uso e desuso de órgãos ou partes do corpo ou, até mesmo, em alguns casos, de mutilações. Esse tipo de fenômeno é chamado geralmente de “herança de caracteres adquiridos” ou “transmissão de caracteres adquiridos”. Concepções como essas estavam presentes na Antiguidade em tratados que integram o Corpus hippocraticum como, por exemplo, “Ar, ares e lugares” e em algumas obras de Aristóteles (384- 322 a. C.) sobre os seres vivos, como História dos animais e Geração dos animais.

Aristóteles considerava que os filhos podiam se parecer com os pais tanto em relação às características congênitas como em relação às características adquiridas, mas que havia poucos casos que confirmassem a herança de mutilações, como fala no Livro Geração dos animais.

No século XVII, estudiosos como o físico Pierre Gassendi (1592- 1655), por exemplo, aceitavam a herança direta de mutilações. No século seguinte, Pierre Louis Moreau de Maupertuis (1698-1759), Georges Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788) e o avô de Darwin, Erasmus Darwin (1731-1802) também consideravam possível que características adquiridas durante a vida dos indivíduos pudessem ser herdadas pelos seus descendentes. Enquanto Buffon admitia a herança direta de mutilações, seu colega Charles Bonnet (1720- 1793) discordava. Na primeira metade do século XIX, a transmissão das características adquiridas esteve presente nas obras publicadas por Jean Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck (1744-1829), a partir de 1800. Durante a segunda metade do século XIX, aparecia também nas obras de Charles Robert Darwin (1809-1882), Herbert Spencer (1820-1903) e Charles-Édouard Brown-Séquard (1817-1894).

 

Retirado do artigo da Lilian Al-Chueyr Pereira Martins, 2005.

Carl Von Linné (1707-1778), pai da taxonomia moderna e contemporâneo de Lamarck também era fixista. Gosto de trazer esses exemplos para que vocês vejam que nomes importantes da História da Ciência não são "pessoas a frente do seu tempo" e, como qualquer outra pessoa de seu tempo, carrega um conjunto de pensamentos próprios da época que vive. Linné, em Philosophia botanica, de 1751, escreve:
"As espécies são tão numerosas quanto as diferentes formas que foram criadas no início”

De Platão à Lamarck

A evolução significa mudança através do tempo, indicando também que existe uma relação de ancestralidade entre as espécies. Diante disso, a primeira questão a se entender é que esse pensamento vem em oposição diametral à ideia ocidental vigente até então: o Fixismo. Desde a visão de Platão, que acreditava que o homem era a expressão mais perfeita da criação e que sua estadia na Terra corrompeu sua essência, dando origem à figuras degeneradas como "mulheres, escravos, aves e animais terrestres", até a visão do Livro da Gênesis, que se ocupando de explicar a origem e construção do universo, estabelece que, no jardim do Éden, todas as criaturas foram pensadas e criadas por Deus para serem subjugadas pelo homem. A Bíblia descreve o homem como imagem e semelhança do divino e dominador sobre as outras espécies animais e vegetais viventes na Terra. Além da característica fortemente antropocêntrica, a principal questão do fixismo​, seja ele platônico-aristotélico ou judaico-cristão é que, nesses raciocínios as espécies não têm nenhuma relação de ancestralidade, visto que todas compartilhariam o momento de criação. Além disso, se foram criadas juntas, têm todas a mesma idade, que seria a mesma idade da Terra. Desta forma, o fixismo não reconhece nem explica o surgimento de novas espécies, pois considera, por exemplo, o ser humano como um animal tão antigo quanto as bactérias mais simples. Um evento único de gênesis, de criação.

Então disse Deus: "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão". Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
Deus os abençoou, e lhes disse: "Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra".
Disse Deus: "Eis que lhes dou todas as plantas que nascem em toda a terra e produzem sementes, e todas as árvores que dão frutos com sementes. Elas servirão de alimento para vocês.
E dou todos os vegetais como alimento a tudo o que tem em si fôlego de vida: a todos os grandes animais da terra, a todas as aves do céu e a todas as criaturas que se movem rente ao chão". E assim foi.
E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito bom. Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o sexto dia.

Bíblia Sagrada, Gênesis 1:26-31

 Apesar da teoria da evolução ser muito ligada ao nome de Charles Darwin, ele só nasce no ano de 1809, ou seja, início do século 19. Exatamente neste ano, por coincidência, as ideias evolutivas ganham bastante popularidade com a publicação de "Philosophie Zoologique", de Jean Baptiste Lamarck (1744-1829). Na capa do livro é desenhada uma serpente, uma vez que o autor ficou conhecido por propor uma explicação para sua origem através de suas leis, que vamos falar um pouco mais à frente. Apesar de seu conjunto teórico ser frequentemente exemplificado com uma girafa, a menção às girafas ocupa apenas um parágrafo desse livro e não representa a peça central de sua teoria. Eu estou aqui justamente para te dar o privilégio de acessar a história do pensamento evolutivo de forma mais complexa e contextualizada.

Como um homem que é o produto de seu tempo, até 1799, Lamarck acreditava em animais e vegetais fixos. Acreditava que existia, sim, alguma influência do ambiente sobre os seres vivos (que é uma ideia bem antiga, aliás), mas que essa influência se limitava a produzir mudanças a nível de variedades, mas não de gerar novas espécies. Ele muda de ideia a partir de alguns trabalhos que produz, que o fazem refletir sobre a natureza da vida e a relação entre animais vivos e não-vivos. Aqui, a história da evolução se conecta com a história do microscópio, que você encontra aqui, pois justamente o estudo das células estava muito relacionado com esse debate da fronteira entre o mundo vivo e não-vivo. Ao analisar diferenças entre seres vivos e não-vivos, Lamarck reflete sobre a inexistência de uma barreira intransponível entre matéria inanimada e a vida, sendo possível o surgimento da segunda a partir da primeira. Seus estudos geológicos e fósseis também o ajudaram a ter uma visão da transformação de todas as coisas, principalmente ao analisar como conchas fósseis se pareciam com as modernas, indicando uma certa noção de descendência com transformação. Vários outros fatores podem ter influenciado um pensamento evolucionista em Lamarck, mas a documentação histórica da época é um pouco escassa. Sabemos que, em 1800, Lamarck apresenta suas novas ideias na aula inaugural do curso que ele ministrava num Museu.

Ao descrever suas próprias ideias, Lamarck não utilizava o termo "evolução". Apesar de hoje o reconhecermos como o principal pioneiro do pensamento evolutivo, à época a palavra evolução tinha outro sentido, mais relacionado ao desenvolvimento de um organismo do óvulo até o estágio adulto. Hoje, conhecemos isso como ontogenia. Ele usava termos como: aperfeiçoamento, progressão, desenvolvimento, progresso, mudança. Não há um nome constante pra descrever o processo evolutivo, por isso historicamente, o mais adequado não é chamar seu conjunto de ideias de Teoria Evolutiva, mas de Teoria da progressão dos animais.
Outra coisa importante de dizer é que as ideias de Lamarck foram sendo refinadas ao longo dos anos e das suas publicações, mas que sua idade avançada o limitava muito. Lamarck  teve dificuldades financeiras e de saúde, chegando a ficar cego por causa de uma catarata, agravada pelos anos de uso constante do microscópio e lupa. 

Lamarck estava muito longe de ser um aristocrata da época. Sua vida foi marcada por muita tragédia: teve três esposas, que faleceram durante sua vida, e oito filhos, os quais três também vieram a falecer. Dos cinco restantes, um era cego, um tinha problemas mentais, duas eram mulheres solteiras e somente um foi financeiramente bem-sucedido. Quando morreu, a família de Lamarck teve de pedir dinheiro emprestado para o funeral. Praticamente todos os seus documentos e manuescritos se perderam no tempo e até ele próprio foi esquecido, até o surgimento da teoria evolutiva de Darwin. Além do conhecimento geológico da época de Lamarck, Os geólogos James Hutton (1726-1797) e Charles Lyell (1797-1875) influenciam fortemente a teoria evolutiva de Darwin por, nos seus campos de atuação, proporem que a Terra passava por mudanças lentas, graduais, mas contínuas para suas formações geológicas. Na época, influenciado pelo pensamento cristão, a ideia mais popular era de que a Terra tinha milhares de anos e que seus processos (por exemplo, o surgimento de um cânion, de um rio, etc) eram repentinos e catastróficos.

Nada permanece constantemente no mesmo estado na superfície do globo terrestre. Tudo com o tempo sofreu mutações diversas, mais ou menos rápidas, conforme a natureza dos objetos e circunstâncias. Os lugares elevados constantemente se degradam, e tudo o que se destaca é arrastado para os lugares mais baixos. Os leitos dos rios, dos córregos, mesmo os mares mudam de lugar, assim como os climas; em uma palavra, tudo na superfície da Terra muda pouco a pouco de situação, de forma, de natureza e aspecto

Lamarck, Secherches sur l'organisation des corps vivants, p. 97-8

Esses geólogos (Hutton e Lyell), então, começam a acumular evidências e dar robustez à ideia de que a Terra poderia ser bem mais antiga do que se pensava (hoje estimamos a idade da terra em 4,6 bilhões de anos) e que os processos eram graduais, lentos e contínuos. Influenciado por estas ideias, Darwin sugere que talvez processos lentos e sutis possam também produzir mudanças biológicas substanciais nas espécies viventes. É a alma da evolução, e ela nasce em concordância com novas concepções sobre os processos geológicos, que modificam o ambiente (justamente o fator que controla os processos biológicos evolutivos). Os processos geológicos e biológicos não concordam atoa. 

 

De Lamarck à Darwin

"Eu nem era o exemplo preferido do Lamarck". Diria a girafa, se pudesse falar

Lamarck desenvolveu muitas pesquisas e contribuiu para diversas áreas do conhecimento. As ideias que mais nos interessam nessa discussão são acerca da teoria de progressão dos animais.

a) Origem dos Seres Vivos

De acordo com a forte influência do pensamento religioso da época, Lamarck explicava que o 'Supremo Autor' teria criado a natureza, que por si só teria dado origem a todos os seres vivos (sem a intervenção divina). Então, apesar de não explicar cientificamente a origem da vida, acreditava na vida como um fenômeno físico. Primeiro, não existiam seres vivos; depois, a natureza (criada por Deus) criaria os primeiros seres vivos a partir da Geração Espontânea. Vale te localizar no tempo: essa ideia só foi ser desconsiderada depois de 33 anos da morte de Lamarck, com os experimentos de Pasteur, em 1862. A partir dos primeiros seres vivos mais simples, espontaneamente gerados, a natureza foi produzindo organismos cada vez mais complexos, com diferentes 'graus de perfeição'. Uma ideia interessante é que ele não acreditava numa origem comum entre animais e plantas, por exemplo, mas que haviam surgido de cadeias diferentes, dois 'ramos distintos', pois são feitos de 'material distinto'.

A natureza, em todas as suas operações, procedeu gradualmente; não pôde produzir todos os animais de uma só vez: primeiro formou os mais simples, passando desses aos mais compostos; estabeleceu neles sucessivamente diferentes sistemas de órgãos particulares, multiplicou-os, aumento sua energia pouco a pouco e, acumulando essa energia nos mais perfeitos, fez existir todos os animais conhecidos, como as faculdades que neles observamos.

(Lamarck, Histoire naturelle, vol. 1, p. 105)

Geração espontânea (do latim: generatio spontanea) também é conhecida como abiogenése, arquebiose ou arquigénese

b) Progressão dos animais

O autor também acreditava que a diversidade de seres vivos seria resultado das transformações que sofriam ao longo da vida, como resposta às suas necessidades de se adaptar às condições ambientais. Lamarck dizia que os animais tendiam a 'complicar a sua organização', formando novos órgãos e aperfeiçoando suas faculdades. Por isso, a ideia de evolução como progresso, vetorial em uma direção única, sempre em direção à ser mais complexo e 'melhor' se torna bem demarcada. Uma ideia importante, que fica como legado para a ideia evolucionista que viria a se formar, é a da influência do meio nas modificações dos organismos:

A influência das circunstâncias é efetiva em todos os tempos e em toda a parte, agindo sobre todos os corpos que gozam da vida, mas o que torna essa influência difícil de ser percebida é que seus efeitos só se tornam sensíveis ou reconhecíveis (sobretudo nos animais) com o decorrer de muito tempo.

(Lamarck, Philosophie zoologique, vol. 1, p. 185)

Quatro das suas ideias mais conhecidas estão na explicação do mecanismo pelo qual os animais adquirem e transmitem as mudanças, publicadas no livro Historie naturelle des animaux sans vertèbres, em março de 1815, nas páginas 151 e 152:

i) "A vida, pelas suas próprias forças, tende continuamente a aumentar o volume de todo o corpo que a possui, e a estender as dimensões de suas partes, até um termo que lhe é próprio" 

ii) "A produção de um novo órgão em um corpo animal, resulta de uma nova necessidade que continue a se fazer sentir, e de um novo movimento que essa necessidade faz surgir e mantém" 

iii) "O desenvolvimento dos órgãos e sua força de ação são sempre proporcionais ao emprego desses órgãos"

iv) "Tudo o que foi adquirido, lavrado ou mudado, na organização dos indivíduos, durante o curso de sua vida, é conservado pela geração e transmitido aos novos indivíduos que provêm daqueles que experimentaram essas mudanças".

 

Fica muito claro a lógica que está sendo descrita pelo autor: a necessidade de modificar-se de acordo com as demandas do ambiente faz com que determinadas estruturas sejam mais utilizadas enquanto outras seriam subutilizadas. Isso ficou conhecido como 'Lei do Uso e Desuso'. Assim, a constante necessidade ou falta de uso de determinada estrutura ou órgão resultaria num aumento ou diminuição da sua capacidade funcional, respectivamente, ocasionando um maior desenvolvimento ou desaparecimento total.

A falta de emprego de um órgão, tornada constante por hábitos que se adquiriu, empobrece gradualmente esse órgão, e acaba por enfraquecê-lo e mesmo fazê-lo desaparecer

(Lamarck, Philosophie zoologique, vol. 1, p. 204)

O emprego frequente de um órgão tornado constante por seus hábitos aumenta as faculdades desse órgão desenvolvendo-o e fazendo-o adquirir dimensões e força de ação inexistentes nos animais que o empregam menos

(Lamarck, Philosophie zoologique, vol. 1, p. 211)

Depois, estas características e modificações adquiridas durante a vida dos indivíduo seriam passadas aos seus descendentes, o que fica conhecido como a segunda Lei de Lamarck: "Lei da Transmissão dos Caracteres Adquiridos". Só um detalhe histórico, é que apesar de ser uma ideia bastante antiga e amplamente aceita durante muitos séculos, como mostrei anteriormente, a 'herança de caracteres adquiridos' continua a ser associada apenas a Lamarck e considerada como sua ideia original. É constantemente empregada como sinônimo de “Lamarckismo” ou confundida com a própria teoria de Lamarck, em si. 

Segundo a interpretação evolutiva de Lamarck, aves com pernas longas teriam surgido por um esforço e um uso muito intenso destas estruturas, para permanecerem fora da água em regiões alagadas, por exemplo; a teoria também foi utilizada para explicar a origem das serpentes, que teriam evoluído a partir de uma espécie de lagarto que se deslocavam muito frequentemente em locais com pouco espaço para se locomover, tendo que mover as patas para o ventre gerando um pouco uso destas estruturas até o total desaparecimento.

Ora, cada mudança adquirida em um órgão por um hábito suficiente para tê-la operado conserva-se pela geração, se é comum aos indivíduos que participam juntos da fecundação para a reprodução de sua espécie.

(Lamarck, Recherches sur l’organisation des corps vivants, p. 50)

As teorias evolutivas de Darwin e Lamarck (que nunca chegaram a se conhecer ou discutir as suas ideias) possuiam semelhanças importantes que, como fiz questão de destacar acima, eram contra-hegemônicas, visto que o pensamento fixista era predominante. Lamarck foi pioneiro e original, fato que rendeu o reconhecimento de Darwin nas publicações de "A Origem das Espécies" (1859). Lamarck reconheceu e elaborou hipóteses sobre a evolução das espécies, levando em conta descendência de caracteres, efeitos da interação entre ambiente-espécie e o conceito de adaptação, ideias utilizadas por Darwin depois, com algumas diferenças na compreensão.

Uma das maiores divergências entre as teorias é o papel do ambiente, que na de Lamarck é ativo nas mudanças dos indivíduos e na de Darwin possui um papel passivo, através da seleção natural. Então, é hora de abandonar velhos conceitos de que Darwin e Lamarck eram "inimigos" ou antagonistas, pois além deles nunca terem se conhecido, ambos foram cruciais para formar uma ideia mais plausível sobre evolução biológica. Hoje, adicionando-se novas observações e conhecimentos de genética, alguns pressupostos de Darwin se tornam inconsistentes, mas isso, de forma alguma faz com que ele perca importância na construção do conhecimento humano sobre evolução biológica. Assim como também não podemos negar a relevância histórica de Lamarck.

Hoje, já descobrimos sobre a herança epigenética, que as autoras do livro "evolução em quatro dimensões" (você pode baixar aquiapontam como um fator que pode trazer a tona algumas ideias lamarckistas, e argumentam que seria necessário rever a nossa teoria vigente no que elas propõem como a síntese Lamarck-Darwiniana. Segundo as autoras, "existem diversos fatores epigenéticos ligados a variação no genoma. O mais recente demonstrou que príons estão emergindo como agentes deste tipo de herança em resposta a estímulos ambientais, gerando novos traços biológicos, que podem ser transmitidos para as gerações descendentes, dando-lhes vantagens fixando alterações genéticas". 

Não é a forma, seja do corpo ou de suas partes, que dá lugar aos hábitos e à maneira de viver dos animais, mas são ao contrário, os hábitos, a maneira de viver, e todas as outras circunstâncias que influem com o tempo constituindo a forma do corpo e das partes dos animais. Com novas formas, novas faculdades vão sendo adquiridas, e pouco a pouco a natureza chega a formar os animais tais como vemos atualmente

(Lamarck, Philosophie zoologique, vol. 1, p. 229)

 

Contribuição de Charles Darwin

Acredito que todos conheçam os aspectos principais sobre a vida e obra de Charles Darwin, mas eu duvido que vocês realmente conheçam os aspectos principais sobre a vida e obra de Charles Darwin. Antes de entrar nesse tema, mais um pouco de contexto. Quero que vocês conheçam um teólogo e filósofo que estudou no mesmo colégio de Darwin (Christ’s College): William Paley (1743-1805). Seus livros eram leitura obrigatória até o século XX. Dentre eles, 'A view of the evidence of christianity' (1794) e 'Natural theology: or, evidences of the existence and attributes of the Deity, collected from the appearances of nature' (1802). Além dos nomes de livros na época serem muito longos, como você já pode ter reparado, outra coisa é interessante de perceber: as ideias de Lamarck e seus contemporâneos não irromperam completamente com a justificativa teológica da origem e imutabilidade das espécies, que continuava viva e plena. É muito importante que, ao pensar em períodos históricos, tenhamos o cuidado de não relatá-los como um conjunto único de ideias. Em qualquer tempo existem ideias hegemônicas e contra-hegemônicas, em embate permanente. Isso é uma constante histórica. Naquele último livro que eu citei, Paley apresenta uma metáfora emblemática, que é utilizada até hoje por anti-evolucionistas como base para um pensamento religioso chamada "Design Inteligente".

Você já tinha visto o Darwin sem barba?

Esse conteúdo foi baseado nos artigos do Nélio Bizzo (2007) e Lilian Martins (2015).

"Ao estudar um relógio, estudamos a mente do relojoeiro. Cada peça do relógio tem um propósito e foi projetada especificamente para atuar com uma finalidade. O conjunto é harmônico e serve a um objetivo maior. É impossível olhar um relógio sem perceber uma mente brilhante no relojoeiro. O relógio era apenas uma construção rude, perto dos animais e das plantas. Estudar os organismos da natureza permitia entender a mente de seu Criador, que projetara toda a perfeição do mundo".

A analogia do relojoeiro argumenta que a complexidade e adaptações dos seres vivos eram prova da intervenção divina na criação, o que já representava uma forma de sofisticação da Gênesis descrita no livro cristão.

Charles Robert Darwin (1809-1882), diferente de Lamarck, era um aristocrata e podia dedicar-se somente aos estudos e experimentos. Em 1831, no auge dos seus 22 anos, embarca na tão famosa viagem a bordo do H. M. S. 'Beagle', que durou 6 anos. Darwin havia sido convidado por John Henslow (1796–1861) via carta, que contava da possibilidade de uma viagem em volta ao mundo. O trajeto incluiu a América do Sul, Oceania e África. No Brasil a estadia de Darwin durou 6 meses, tendo visitado Salvador (BA) e o estado do Rio de Janeiro, onde ficou mais tempo (5 meses). Uma outra parada muito importante na sua viagem foi em 1835, nas Ilhas Galápagos, um arquipélago vulcânico do Oceano Pacífico. Essas ilhas, que pertencem ao Equador, atualmente são um dos destinos mais procurados para Turismo Natural, justamente pela sua influência na formulação da Teoria da Evolução por Charles Darwin. Até embarcar no Beagle, Darwin era o que se podia chamar de fixista.

“Quando eu estava a bordo do H.M.S. 'Beagle,' como naturalista, fiquei muito impressionado com certos fatos na distribuição dos habitantes da América do Sul e com as relações geológicas dos habitantes presentes com os do passado  naquele continente. Estes fatos, me parecia, poderiam lançar alguma luz sobre a origem das espécies – aquele mistério dos mistérios, como foi chamado por um de nossos maiores filósofos.”

(Charles Darwin, Origem das Espécies, 1859)

No dia 17 de dezembro de 1832, enquanto Darwin se preparava para desembarcar ao sul do Cabo San Sebastián, na Argentina, seu professor de Geologia, Adam Sedgwick (1785-1873), proferia, na Capela do Trinity College, em Cambridge, o discurso de celebração do feriado natalino na forma de um sermão. Publicado diversas vezes, inclusive em tempo recente, ele é uma boa fonte para compreender a maneira como a natureza era vista no ambiente universitário em que Charles Darwin acabara de completar seus estudos.

Deus não criou o mundo e o largou a si mesmo, mantendo-se sempre depois um espectador inerte de seu próprio trabalho: pois ele coloca diante dos nossos olhos as provas seguras de que durante períodos sucessivos têm havido não só grandes mudanças na vida orgânica; mas que, em cada caso de tal mudança, os novos órgãos, na medida em que podemos compreender a sua utilização, foram adequados exatamente para as funções dos seres aos quais foram dados. Isso mostra um poder inteligente não só desenvolvendo meios adaptados para um fim: mas em muitos tempos sucessivos desenvolvendo uma mudança de mecanismo adaptada a uma mudança de condições externas; e, assim, proporciona uma prova peculiar de que a grande causa primeira permanece como uma inteligência ativa e providente.

A ideia de perfeição, atribuída constantemente ao Deus descrito pela crença católica, indefectível e onipotente, também era direcionado à todas as suas criações, como o mundo natural. O raciocínio se torna cíclico, já que os seres vivos criados por Deus seriam perfeitos e o fato de serem perfeitos era uma prova indiscutível de que uma grande inteligência realizava constantes ajustes em sua obra. Esses ajustes seriam necessários já que a ideia de que o ambiente sofria mudanças já era bem popular nessa época, que é marcada também pelo início da ciência que conhecemos hoje como Geologia. A teoria proposta por Darwin tocava também nesse ponto: ela descrevia que os organismos não eram perfeitamente adaptados ao meio em que viviam, mas que aqueles que melhor adaptados fossem, tendiam a se sobrepor aos menos adaptados, em uma escala muito sutil de disputa. Evolução Biológica não se tratava de melhoramento, de progressividade, mas de mudança guiada pelo acaso, pela aleatoriedade e selecionada pelo meio.

Darwin só publica em 1859 o seu livro mais conhecido: On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life ou "Da Origem das Espécies por Meio da Selecção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida". Atualmente conhecemos somente como "Origem das Espécies", porque alguma época tinha que superar essa coisa de nome de livro gigante. Não sei se você chegou a cruzar as informações, mas a viagem pelo mundo aconteceu entre 1831 e 1837 e o livro é publicado somente 22 anos depois. Quem não se identificou um pouco com ele nessa, ein? Seria Darwin gente como a gente? Lamento decepcionar você, mas o que inicialmente parece procrastinação e desinteresse, na verdade é um pouco mais complexo. Durante a viagem, Darwin coletou amostras geológicas, biológicas, realizou observações e anotações extensas nos seus cadernos de campo. Tudo isso demorou muito tempo para ser condensado em artigos e, finalmente no seu livro. Além disso, ele encontrava controvérsias dentro da sua linha lógica, que dialogavam com o status do conhecimento sobre geologia da época, como já falamos antes. Qual a idade da Terra? Qual a velocidade dos eventos geológicos?

Nesse meio tempo, mudou de convicções acerca até mesmo da sua tese central (a seleção natural), concluiu depois de certo tempo que a mudança evolutiva poderia se dar em espaços de tempo menores e sem mudanças dramáticas no ambiente. Darwin tomou o pressuposto de que os seres vivos não estão perfeitamente adaptados ao meio, mas apenas mais bem adaptados do que seus ancestrais. Isso implicava modificar a perspectiva de atuação da seleção natural, que passaria a atuar de forma constante. Os mais bem adaptados precisariam de relativamente pouco tempo para ocupar o lugar daqueles de alguma forma menos adaptados, mesmo em grau ínfimo, diante do escrutínio implacável da seleção natural, constantemente desbastando as populações na corrida pelo sucesso adaptativo. Essa nova visão foi a que veio a ser publicada em 1859.

A repercussão do livro foi muito grande, recebendo uma torrente de críticas e contrapontos, que viriam a ser considerados por ele na redação das edições seguintes da obra. Mais tarde, com a ideia de que havia uma linha de ancestralidade entre todos os seres vivos, algo que feria tremendamente a tradição antropocêntrica do pensamento cristão ficava evidente: somos animais, sujeitos às leis naturais como quaisquer outros e derivados de outros organismos, como quaisquer outros. A teoria da Evolução Biológica de Darwin afetava, sobretudo, a noção de que o homem estava mais próximo de Deus que os outros animais e plantas e de que era distinto, especial, único.

No seu Livro "The Descent of Man" (O descendente do homem), publicado em 1871, Charles Darwin descreve como as faculdades intelectuais e morais do ser humano podem ter evoluído a partir de ancestrais semelhantes a macacos. Depois dessa publicação, se tornou relativamente comum para cartunistas a representação de Darwin com corpo de macaco e cabeça de humano, como você pode ver abaixo.