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Por que estocamos gordura?

Atualizado: 16 de fev. de 2021

Você já deve ter noiado com as gordurinhas em algum momento da sua vida, né? Não pistola não, elas são a reserva energética que é são mobilizadas quando seu estado energético geral fica muito baixo. Graças a elas vocês conseguem fazer jejum involuntário em época de prova (rs) sem desmaiar. Então, antes de tudo, agradeça a elas. Mas a provocação que eu venho trazer é o seguinte: nós aprendemos em todos os lugares que a principal função dos carboidratos é a função energética, pi pi pi po po po. Então, se os carboidratos são a fonte primeira e preferencial de energia, porque estocamos energia na forma de gordura? Bom, antes de mais nada é importante que você saiba que o açúcar possui vias metabólicas específicas para se converter em gordura e vice-versa. Então não é só comer gordura que aumenta estocagem de gordura, comer açúcar em excesso também, viu?

Por que o nosso corpo tem uma reserva tão pequena de carboidratos (glicogênio, que se concentra na musculatura e no fígado) e prioriza a reserva de gordura (que se concentra no tecido adiposo, espalhado por todo o corpo)? Bem, a resposta está em dois pontos: (i) nas características químicas dos carboidratos e dos lipídios; e (ii) na rentabilidade energética da oxidação dessas moléculas.

Sobre o primeiro ponto: Nós estocamos lipídios na forma de triacilglicerol (TCG), que têm uma característica apolar muito proeminente, o que faz dele insolúvel em água. Muito hidrofóbico. No tecido adiposo, local de estocagem dos lipídios, os TCG são armazenados no citoplasma dos adipócitos, podendo ocupar até 97% do volume intracelular. O fato de ser insolúvel faz com que ele interaja o menos possível com a água, logo, mesmo uma grande concentração de gordura dentro do citoplasma não altera o equilíbrio osmótico da célula. Seria diferente se você enchesse o interior da célula com algo solúvel em água, como o cloreto de sódio (NaCl). Se você preenchesse 97% do volume intracelular com NaCl, a quantidade de água que teria que entrar para equilibrar osmoticamente os meios intra e extracelular seria imensa, logo, a membrana plasmática se romperia com a pressão. A célula ia literalmente explodir de dentro pra fora, pela quantidade de água. Tipo uma bexiga (balão) quando você enche demais. Já o glicogênio, é estocado no fígado e no tecido muscular. Glicogênio nada mais é do que uma molécula composta por milhares de moléculas de glicose ligadas umas às outras. Ele é um carboidrato, com uma característica predominantemente polar, logo, hidrofílico. Então, interage com a água por ligações de hidrogênio. Poderíamos quantificar da seguinte forma: 1g de glicogênio interage com 3g de água.

Então, em relação às características químicas dos lipídios e dos carboidratos, temos que: nos adipócitos, os triacilgliceróis são estocados em grande quantidade sem desequilibrar osmoticamente a célula, pela sua insolubilidade em água e no fígado e nos músculos, o glicogênio é armazenado interagindo na proporção de 1 parte de glicogênio para 3 partes de água.

Sobre o segundo ponto, temos que a oxidação completa de uma molécula de glicose gera, pela respiração celular, cerca de 34 ATP. A oxidação completa de uma molécula de palmitato, um ácido graxo comum no nosso organismo, pela B-oxidação, gera cerca de 106 ATP. Essa diferença se dá por que os lipídios estão em um estado altamente reduzido, o que faz a sua oxidação ser mais rentável. Levando em conta essa diferença de rentabilidade que é vista entre as moléculas (aproximadamente de 3x maior), temos que: para uma reserva de carboidratos ser energeticamente equiparável a 15kg de triacilgliceróis, seria necessário 45Kg de carboidratos.

Mas calma, estamos falando em termos energéticos, mas não podemos esquecer que 1 grama de carboidrato interage com 3g de água. Lembra? Pois é, e água pesa. Então esses 45kg de carboidrato absorveriam 135kg de água, totalizando 180kg. Então, vou refazer a frase, mas agora mais correta: para uma reserva de carboidratos ser energeticamente equiparável a 15kg de triacilgliceróis, seria necessário 180Kg de carboidratos acrescidos da água para solubilizá-lo. Claro, deixa só eu soltar a ressalva: isso é um modelo teórico, tá? Apenas uma conjectura, bem aproximada, só pra exemplificar. Então, imagine-se tendo que correr de um predador com 180kg só de material de reserva energética. Tenso, né? Então, a estocagem de lipídios é uma verdadeira joia para os organismos que precisam equilibrar a relação entre tamanho, estoque de energia e peso, já que água pesa. E pesa muito. Nunca mais reclame da sua gordurinha, apenas agradeça por não ser glicogênio.

#Metabolismo