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O que é Racismo Ambiental?

Atualizado: 25 de mai. de 2020


O Racismo ambiental é um termo relativamente recentemente criado pelo Movimento Negro Norte-americano, no âmbito das lutas por direitos civis do século XX. Na década de 1980, em Warren Country, North Carolina, um grupo de pessoas negras, organizadas, iniciou um movimento contra a instalação de um aterro de resíduos tóxicos de bifenil-policlorado (BPC), que nada mais é que um composto organoclorado sintético, altamente poluente ao meio ambiente, podendo contaminar alimentos, ar, água e solo. Ele é classificado como POP, isto é, Poluentes Orgânicos Persistentes, que são caracterizados por serem altamente tóxicos, permanecerem no ambiente por muito tempo e serem bioacumulativos e, por consequência, biomagnificantes. Sua característica bioacumulativa é conhecida há muitas décadas, por conta da sua estrutura química, que permite pouca interação com a água (hidrofóbica) se acumulando em tecidos gordurosos dos seres vivos. O que estava ocorrendo era que a Environmental Protection Agency (da sigla em inglês, Agência de Proteção Ambiental, dos EUA) estava promovendo uma limpeza de solos contaminados em diversas regiões do país e escolheu o bairro negro de Warren County para depositar os contaminantes. Um estudo feito na época descobriu que 75% dos aterros de resíduos tóxicos do sudeste dos EUA estavam localizados em bairros negros.

O Movimento negro americano, na luta por justiça ambiental, chamou atenção para o fato de que os impactos ambientais são desproporcionalmente distribuídos e que populações marginalizadas e as etnias vulnerabilizadas dos países subdesenvolvidos do mundo ficam com a conta desse sistema predatório. Injustiça ambiental é definida como “o mecanismo pelo qual sociedades desiguais, do ponto de vista econômico e social, destinam a maior carga dos danos ambientais do desenvolvimento às populações de baixa renda, aos grupos sociais discriminados, aos povos étnicos tradicionais, aos bairros operários, às populações marginalizadas e vulneráveis.” (1) (2)

Ao observar o exemplo brasileiro vemos na prática o que já denuncia há décadas esse movimento. Aqui, os indígenas, quilombolas o povo do campo, população ribeirinha e a população favelada das grandes cidades são as principais afetadas pelos problemas ambientais gerados pelo grande capital, tendo que conviver com doenças, alterações microclimáticas e intoxicações que não afetam a elite branca. Para se ter uma noção, em dados oficiais do governo, um terço dos quilombos brasileiros são atingidos de alguma forma por grandes empreendimentos. Ao passo que são expostas com mais força aos danos ambientais deixados, as populações vulnerabilizadas ficam mais prejudicadas quanto ao acesso a recursos naturais salubres, como ar limpo, solo cultivável e água potável, o que é uma garantia constitucional, segundo o Art. 255 (9). Normalmente, o ciclo se repete: os empreendimentos chegam nos lugares que essas populações moram, contratam parte dos moradores como mão-de-obra extremamente mal-remunerada, exploram economicamente os recursos naturais e depois abandonam o local, deixando-o sem recuperação ambiental, como exemplo o reflorestamento. Esse vídeo, feito pela Defensoria Pública da União mostra mais sobre essa interface do Racismo.

Uma checada rápida no site da pegada ecológica (3) nos revela algo interessante: os países com maior pegada ecológica são aqueles desenvolvidos. Se você não sabe, a pegada ecológica é o custo ambiental agregado às cadeias produtivas dos produtos que a população consome. Por exemplo, um tomate que você come tem um custo ambiental agregado da água para regá-lo, do combustível fóssil para abastecer o caminhão que levou ele até você, do espaço de terra que aquele cultivo ocupou, e muito mais. Portanto, se você consome um tomate que você mesmo plantou a sua pegada ecológica diminui muito em relação a comprar um produzido em outro estado. Se você tem um armário cheio de roupas, troca de celular todo ano, etc, com certeza tem uma pegada ecológica alta. A pegada ecológica dos EUA é 8.6. Isso significa que se todos os seres humanos tivessem os mesmos hábitos de consumo que nossos vizinhos do norte, seriam necessários mais de oito planetas e meio. Esse número também pode ser entendido como: os EUA consomem recursos naturais 8.6 vezes mais rápido do que o planeta pode regenerar; ou, se os EUA tivessem recursos naturais para ser consumidos durante um ano inteiro, respeitando a velocidade de regeneração dos ecossistemas, eles acabariam com tudo que têm guardado no dia 11 de fevereiro e teriam que passar o resto do ano com fome. A pegada ecológica de outros países desenvolvidos são: 6.3 na Bélgica, 4.8 na Alemanha e Holanda, 4.4 na Itália e Reino Unido, etc. Esse padrão cria mapas autoexplicativos como abaixo, onde quanto ais escuro, maior a pegada ecológica per capita do país..

Como isso é possível? Esses países, com déficits ecológicos são, basicamente, importadores de biocapacidade de países menos desenvolvidos, mas geopoliticamente influenciados por eles, como o Brasil. O Brasil, na década de 60 e 70, teve um acréscimo de 119 a 1.112% na exportação de produtos agrícolas, enquanto o aumento na produção de alimentos básicos para a população foi de 20%. Esse aumento nas exportações só foi possível graças aos agrotóxicos, maquinário agrícola e sementes transgênicas vendidos por empresas americanas ao produtor rural brasileiro. Esse momento histórico ficou conhecido como revolução verde e gerou consequências como desemprego no campo, êxodo rural, favelização nas cidades, etc. (4) Lembrando que o país estava no auge da sua Ditadura Militar, que (se você bem lembrar) foi patrocinada pelos EUA. Esses países investem muito em ter suas monoculturas e poços de petróleo fora de seu território, pois deste modo os danos ambientais dessas atividades ficam na conta dos países exportadores (5). Mesmo não produzindo a maior parte do que consomem, os países desenvolvidos são os maiores responsáveis pela emissão de gases estufa e uso predatório dos recursos naturais.

As consequências da emissão dos Gases do Efeito Estufa você já sabe: aumento da temperatura média global, degelo de calotas e aumento do nível dos oceanos, eventos climáticos extremos, mudança no regime de chuvas (o que gera estiagens muito prolongadas e desertificação), perda de espécies animais e vegetais (principalmente no equador e nos trópicos), acidificação dos oceanos, etc. Enquanto os países mais ricos já detêm tecnologias de dessalinização, construções resistentes a abalos sísmicos, pára-raios, barreiras de contenção do nível do mar, os países mais pobres terão que arcar com as consequências sem acesso à maior parte das tecnologias, o que é a ONU classificou como apartheid climático (6). Imagine um cenário global onde água potável vira moeda de troca e os fatores direta ou indiretamente ligados ao aquecimento global são os maiores motivo de guerra e a maior força migratória do mundo. Não estamos tão longe desse cenário. Na verdade, estudos apontam que as mudanças climáticas já são uma força migratória poderosa (7) e a água já é tratada como uma commodity pelo mercado financeiro na maior parte dos países (8), da mesma forma que hoje é o petróleo e a soja. Como você pode prever, se hoje as migrações da África e Oriente Médio para a Europa já despertam o crescimento de partidos e políticos ultranacionalistas, que pregam construir muros e fechar fronteiras, imagine num momento de escassez, onde o motivo dessas migrações forem secas? A tendência é a lógica se inverter ou se reforçar? Conhecendo o mundo como você conhece, quem serão os primeiros (quiçá os únicos, em números largos) a morrer?

Referências:

(1) Declaração da Rede Brasileira de Justiça Ambiental

(2) Herculano, S. RACISMO AMBIENTAL, O QUE É ISSO? Link: www.researchgate.net/profile/Selene_Herculano/publication/266344253_RACISMO_AMBIENTAL_O_QUE_E_ISSO/links/543746640cf2643ab9889338/RACISMO-AMBIENTAL-O-QUE-E-ISSO.pdf

(3) Site Oficial da Pegada Ecológica. Dados. http://data.footprintnetwork.org/#/

(4) Andrades, T. O.; Ganimi, R. N. 2007. REVOLUÇÃO VERDE E A APROPRIAÇÃO CAPITALISTA. Link: www.cesjf.br/revistas/cesrevista/edicoes/2007/revolucao_verde.pdf (5) G1. Aquecimento global afetará fortemente a América Latina, diz Banco Mundial. Link: http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL1545020-5603,00-AQUECIMENTO+GLOBAL+AFETARA+FORTEMENTE+A+AMERICA+LATINA+DIZ+BANCO+MUNDIAL.html

(6) Nexo Jornal. O que é o apartheid climático apontado pela ONU?. Link: www.nexojornal.com.br/expresso/2019/06/26/O-que-%C3%A9-o-apartheid-clim%C3%A1tico-apontado-pela-ONU

(7) Instituto Humanitas Unisinos. A mudança climática causa mais migrações do que guerras e fatores econômicos. Link: www.ihu.unisinos.br/78-noticias/589305-a-mudanca-climatica-causa-mais-migracoes-do-que-guerras-e-fatores-economicos

(8) Folha de São Paulo - Mercado, Água, minerais, lítio e carbono viram estrelas no novo ciclo de commodities. Link: www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/02/1744233-agua-minerais-litio-e-carbono-viram-estrelas-no-novo-ciclo-de-commodities.shtml

(9) Art 255 da Constituição da República Federativa do Brasil. www.senado.leg.br/atividade/const/con1988/con1988_26.06.2019/art_225_.asp

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